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Relato Audax 400 SAC - 17 e 18 de agosto de 2013

Written By ninki on quarta-feira, 21 de agosto de 2013 | 20:23

Aviso: texto absurdamente longo

Antes do relato da prova propriamente dita, um pouco de contexto, a respeito das últimas três provas acima de 200km que participei no último ano, não tendo completado nenhuma delas.

Minha preparação para este Audax 400 começou logo após o Audax 400 do ano passado, no mesmo trajeto, quando não consegui completar a prova, desistindo no km 300 aproximadamente (na altura de Passo do Sobrado). Naquela ocasião, eu estava com uma bicicleta mais pesada, carregava bastantes coisas (roupas principalmente, pois estava muito mais frio do que este ano), e o que acredito ter sido minha maior "falha": paradas demais, longas demais. Levava uma planilha feita pelo Paulo Roberto Batagini, e ao perceber que a minha média geral já estava abaixo de 13 km/h, optei por desistir.

Percebi que precisava de uma bicicleta mais apropriada ao randoneirismo, modalidade que pretendo continuar praticando ainda por um bom tempo. Ao longo dos meses, reuni os componentes e montei a tal bicicleta, que funcionou muito bem nos treinos e em algumas provas de 200km no verão. Entretanto, no Audax 300 "da serra", com essa bicicleta, acabei desistindo novamente, ao redor do km 200. Apesar de ser um trajeto particularmente difícil, dessa vez não houve como culpar o equipamento, e as paradas que fiz foram tão breves quanto possível. Em especial, o desempenho na ida foi muito bom, acompanhando alguns "feras" dos Audax, como o Edimar Graxa, o Vitor Matzembacher e o Carlos Polesello, por exemplo. Entretanto, o preparo foi insuficiente para continar acompanhando esse grupo após o PC 150 em Estrela.

Após essa segunda desistência, que já foi relatada em outro momento (citando a persistência vencedora do Erich Brack, que foi ingenuamente subestimada por mim), comecei a perceber que havia "algo mais", que o meu modelo de preparação não estava considerando. Havia, claro, um componente de "bicicleta apropriada", que se não estava perfeito, estava na verade já bem acima do mínimo, não sendo mais motivo de preocupação. Havia também um componente de preparo físico, mas isso não deveria ser desculpa, porque eu treino regularmente, sou saudável, e estou em condições físicas dentro da média de quem faz audax, ou até melhor se considerarmos os exemplos de superação: gente que, apesar de vários fatores em contrário, mesmo assim completa provas difíceis.

Minha nova teoria passou a incluir o componente psicológico, mas não da forma como normalmente é considerado quando se fala que "Audax é X% psicológico" (sendo X um número entre 50 e 99). Em geral, são citadas à exaustão a capacidade psicológica de SUPERAÇÃO do desafio, de PERSEVERANÇA frente à dificuldade, e até de FÉ na própria capacidade. Olhando para trás, as duas últimas desistências foram motivadas não pela falta de capacidade, pois eu sabia que era perfeitamente possível completar a prova SE EU REALMENTE QUISESSE. Ou seja, o que faltou foi o componente QUERER. Eu sabia que completar as provas (essas em que eu desisti) significaria pedalar em condições de privação e desconforto bem conhecidas, e eu não estava DISPOSTO a trocar esse desconforto e essa privação por "mais uma medalhinha".

O fato é que nesse 300 da serra, ao ver na linha de chegada aquelas mesmas pessoas que pedalavam ao meu lado enquanto eu pensava em desistir, me bateu um arrependimento IMENSO, uma sensação de exclusão, de não-pertencimento, de ter "traído a causa", de não ter justificativa para abrir mão de algo que estava ao alcance, de certa forma somente por "preguiça".

Pois bem, segui me preparando, e chegou o 300 do trajeto tradicional, em julho passado. Bicicleta totalmente envenenada (nunca esteve melhor), e uma quantidade de treino adequada, embora não ideal. Na largada, um fato comovente, que também já relatei em outro momento: uma família que veio acompanhar a largada de alguém, e junto nessa família um menininho numa cadeira de rodas (depois fiquei sabendo que o apelido dele é Pipi, confere isso?). Aí eu pensei: "bah, agora é que eu não tenho MESMO como ser cara de pau de desistir por preguiça..." O menininho ali, talvez até nos mirando como algum tipo de modelo admirável, seria muito feio decepcioná-lo, seria um anti-exemplo...

Mesmo assim, duas coisas me incomodaram bastante naquela prova: uma, foi a incapacidade de manter a média horária desejada, durante a largada. Cheguei no segundo pedágio com 22 de média, e mesmo tendo tentado andar um pouco mais rápido, tive de diminuir pois sentia que estava em um nível excessivo de esforço... E segundo: nesse segundo pedágio, A BICICLETA QUEBROU, e eu tive de abandonar a prova querendo ou não... Justamente a bicicleta que eu montei PARA PODER completar provas, me tirou da prova...

Então, as próximas três semanas até o 400 estavam acumulando uma série de elementos desfavoráveis: duas desistências consecutivas em provas longas, dúvidas quando ao real preparo físico, bicicleta nem tão confiável, e apenas três semanas de preparo, uma delas ocupada quase toda por uma viagem a trabalho onde eu não teria oportunidade de pedalar nem meio quilômetro.

Aliado a isso tudo, o inverno, as longas e frias horas de escuridão noturna, a condição erma das estradas por onde costumamos passar, e as más experiências no trânsito de Porto Alegre, por onde pedalo diariamente para ir e voltar do trabalho, fazem com que às vezes a gente sinta que pedalar o audax é um pouco como cruzar um oceano em uma canoa: se algo der errado, ou mesmo se simplesmente a gente ficar pra trás do pelotão, estaremos nós, um ponto insignificante em cima de uma bicicleta insignificante na beira de uma estrada, de noite, longe de tudo e de todos, no frio, dependendo de que não fure pneu, e de que se fure a gente consiga consertar, de que não caia alguma peça pequena porém fundamental no meio de um tufo de macega, que o vento não seja contra e não chova de madrugada, que não acabe a pilha da lanterna... A experiência acumulada no nem tão pequeno número de provas noturnas que já participei dizia que a maioria dessas preocupações era infundada, mas mesmo assim essas preocupações existiram, e um dos objetivos que eu tinha era de, finalmente, com uma prova longa CONCLUÍDA com sucesso, quebrar esse encanto e finalmente entrar de novo nos eixos dos audaxiosos bem-sucedidos.

Terminada essa introdução (que já está mais longa que muito relato inteiro, mas fazer o que...), segue o relato da prova propriamente dita.
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Minha preparação final para esta prova começou na segunda-feira, quando por medo da falta de sono crônica, me determinei a deitar para dormir todos os dias no máximo às onze horas da noite. Não consegui nenhuma vez, mas em média onze e meia eu já estava deitado. Senti que isso me fez MUITO bem. Além disso, alimentação moderada, e nada de pedal destrutivo, somente as idas e voltas ao trabalho, na bike com que eu faria a prova (pra ir corrigindo alguma inadequação).

Resolvi também seguir uma dica do Marcelo Bueno, na verdade uma coisa bem óbvia mas que há tempos eu não fazia: levar barras de cereal para comer. Eu andava levando chocolate, salgadinho, mas no fundo no fundo só a barrinha é realmente, e a qualquer momento, satisfatória. Isso e o fato de ter colocado as barrinhas na bolsa de guidão, onde eu podia pegá-las a qualquer momento sem parar de pedalar, fez toda a diferença... Como última malandragem alimentar, um café preto com açúcar, dessa vez mais diluído (pra já contar como hidratação junto), na segunda caramanhola.

No dia da prova, levantei da cama às dez da manhã, tomei café, dei uma ajeitada final na parte mecânica (o que incluiu limar os dentes de duas das pinhas, que estavam pulando com a corrente nova - funcionou!), cozinhei um macarrão malandro para o almoço em família, e uma e meia da tarde saí em direção do DC Navegantes, que fica a 5km da minha casa.

Chegando no DC, muitos amigos, o briefing não tinha começado, vários ciclistas almoçando, fui pedir um suco. Olhei para a comida, a comida olhou para mim, e acabei "almoçando de novo", servi um prato pequeno com macarrão, frutos do mar, um pedaço de melancia, e muitos figos. Foi muito útil!

Uma ida ao banheiro, uma última verificação em tudo, e logo estávamos alinhados para a largada. Havia sol, pouco vento leste, um dia agradável para pedalar, e a motivação estava lá em cima. Nenhuma apreensão, mesmo sabendo dos quatrocentos quilômetros (escrevi por extenso de propósito) que viriam. Acho que isso se deve ao horário da largada, um horário muito mais natural do que COMEÇAR a pedalar na hora em que normalmente a gente já estaria indo dormir...

Seguimos pelas pontes, e o vento que inicialmente era a favor foi ficando cada vez mais de lado até chegarmos a Eldorado do Sul, o que significava que estaria a favor ao longo da 290. Dito e feito, entramos na 290 e estava muito fácil de andar num ritmo firme, todo mundo em pelotão tranquilo sem aquele desespero de um pegar vácuo do outro, conseguindo conversar sem perder o fôlego. Como já disse em outros momentos, tenho um monte de amigos que só vejo em Audax, e três deles com quem costumo conversar mais são aqueles que já mencionei: Vitor Matzembacher, Carlos Polesello e Edimar Graxa. Uma coisa que me deixou muito feliz nas últimas provas é perceber que tenho conseguido acompanhar eles. Uma curiosidade é que eles me tiram pra picapau (tenho certeza!) devido aos meus intermináveis resmungos e reclamações, assim como o apego mórbido a teorias pedalísticas de efetividade questionável...

A 290 é considerada por muitos a parte mais chata daqueles trajetos, e não sem razão. Felizmente, com as conversas rolando livremente, logo estávamos no pedágio, no bendito pedágio em que minha bicicleta havia quebrado exatamente três semanas atrás. Passamos por ele sem parar, e seguimos embora, por uma paisagem a partir dali já bem menos plana e monótona.

Logo em seguida, paramos para esvaziar a bexiga. Era o primeiro momento em que colocávamos o pé no chão desde a largada, e foi bom esticar as costas. Comi uma bergamota pela metade, porque o pessoal não perdeu tempo, subiu logo na bike e se eu ficasse ali comendo mosca (ou bergamota) ficaria pra trás com certeza.

Na subida da serrinha que tem perto de Arroio dos Ratos, o Graxa perguntou se a gente ia querer um sanduíche, porque ele estava ao telefone com um conhecido de Butiá que ia fazer uns sanduíches. Eu achei que era desnecessário, pois pretendia comer na Raabelândia, e assim como eu, a maioria agradeceu e recusou o sanduíche. Mas ainda antes do final da subida, olhei no GPS e estávamos recém no km 60, ou seja, estávamos somente na METADE do caminho até a Raabelândia (PC1, km 120)... Pensar em comida, acho eu, deixou o pessoal com fome, e acabamos pedindo ao Graxa que reservasse o tal sanduíche para nós.

Foi a melhor idéia. Já tendo pegado o belo pôr-do-sol, ao longo das onduladas colinas que separam Arroio dos Ratos e Butiá, paramos no restaurante indicado pelo Graxa, e foi grata a surpresa de ver os enormes sanduíches, feitos com quatro fatias de pão cada, com salada, frios e ovo cozido, sobre a mesa à nossa espera... Comemos com vontade e satisfação, acompanhados de uma Coca-Cola litrão, e rapidamente após o lanche muitos trocaram suas roupas e óculos, pegaram luvas, ligaram faróis e lanternas, e seguimos viagem. Meu farol não estava muito bom, mas felizmente eu tinha um novo, melhor, no capacete, e mais felizmente ainda estava rodeado de outros ciclistas que, esses sim, tinham faróis DE VERDADE.

Aquele trecho ao redor de Minas do Leão é o pior da prova, em minha opinião. Tanto pelo horário (início da noite) quando pelo enorme fluxo de caminhões (ali fica um dos maiores aterros sanitários do estado, além de ser uma rodovia importante) e de ter um acostamento bastante sujo. Outra coisa que é questionável é o hábito dos engenheiros rodoviários de colocar TACHÕES no meio da pista. Acredito que a maioria já tenha notado, mas quando há tachões, fica altamente perigoso para os ciclistas andarem perto do bordo da pista, pois os veículos não têm espaço para dar o proverbial 1,5 metro. Na verdade, eles ficam sem espaço para dar sequer UM CENTÍMETRO de folga, especialmente se forem carretas enormes.

Mesmo assim, um equino colega nosso, que muitos que vão ler isto sabem quem é mas eu não vou dizer o nome, teve a genial idéia de ultrapassar o nosso pelotão, pelo meio da pista, na frente de um caminhão enorme que vinha embalado, justamente em um ponto com tachões no eixo central. O caminhão teve que buzinar, desviar para a esquerda, "atropelar" os tachões em uma velocidade muito acima do recomendável... Um fiasco. Prontamente, alguns colegas foram até lá para repreender o ciclista trapalhão, mas diz a lenda que ele não se comoveu muito. Enfim.

Depois do a entrada do aterro, vem um trecho bem longo (uns 20km pelo menos) longe de qualquer cidade, onde a estrada tem bom acostamento, bem menos movimento, e é bem escura. Naquele trecho, realmente começa a atuar o "clima randoneiro", de seguir pedalando, pedalando, olhando a luz do farol (próprio ou dos outros), em silêncio (pois a conversa já está em dia, e o cansaço começa a bater), numa cadência constante, ora no vácuo de um, ora no de outro... Começam a aparecer novos colegas, tanto porque somos alcançados como porque alcançamos alguém que estivesse mais à frente, e por vezes não temos nem certeza se conhecemos ou não o ciclista que está ao nosso lado, pois toda a identificação que temos dele é a bicicleta, a roupa, o colete e o padrão das luzes. Mesmo aqueles que já foram "identificados" de dia se tornam indefinidos à noite, porque já não é tão fácil, por exemplo, reconhecer o Vitor por seus pernitos azuis característicos...

Esse trecho contou como um daqueles em que a gente deve "desligar" o cérebro e parar de contar os quilômetros, contando mais é a sensação de passagem de tempo, que é mais fácil de trabalhar do que a velocidade real: aquela é subjetiva, é sujeita à imaginação, enquanto esta - a velocidade - é 100% física, real e objetiva. Não temos como pedalar a 100 km/h mesmo se quisermos, mas temos como fazer dez minutos "sumirem" da nossa percepção se arranjarmos algum truque mental para executar.

De truque em truque, chegamos ao primeiro trevo de Pantano Grande e, logo em seguida, à Raabelândia. Todos pediram torrada e suco de laranja, e eu pedi além disso um café com leite. Botei meu celular a carregar numa das tomadas, para que o GPS ficasse garantido, e fizemos toda a "toalete" no banheiro, incluindo especialmente lavar as mãos até os cotovelos e o rosto, bem lavado, para comer com a decência merecida. Ali foi uma parada mais agradável, um PC propriamente dito, onde todos os ciclistas paravam. A Raabelândia definitivamente é um bom lugar, com preços justos e ótima qualidade. Um PC ideal!

Até ali, eu vinha acompanhando pelo meu diagrama mágico (que desenhei a mão sobre um papel milimetrado) e nossa média geral estava em torno de 22 km/h, o que é muito bom em termos de Audax. O vento parecia estar soprando sul, portanto estaria levemente contra durante a subida para Encruzilhada. Após o lanche, todos prontamente se mexeram, e em seguida saímos.

Após um trecho inicial curto num asfalto mais estreito e irregular, saímos na estrada para Encruzilhada, num clima "de sonho" conhecido por quem já fez algum audax noturno em noite de lua: pouco trânsito, a estrada larga e lisa bem visível sob a luz da lua pós-quarto-crescente, assim como a paisagem rural ao redor da estrada, iluminada pelo luar e visível até onde a vista alcançava... Esse seria um trecho relativamente longo (41 km), e demorado, deivido à subida acumulada de mais de 200 metros de desnível. Mas o silêncio da noite, e a paisagem rural em noite de lua, nos dava a certeza de que esse trajeto não precisaria de paciência: era ALI que aproveitaríamos, era PARA AQUILO que estávamos fazendo o Audax, é desse tipo de coisa que tiramos o gosto do pedal.

Nesse trecho, eu já havia colocado as luvas, embora ainda não estivesse com o corta-vento. No ano anterior, ali foi um dos trechos de maior frio, pela altitude e pelo vento contra muito gelado, mas este ano não houve motivo algum para reclamar de frio, estava muito adequada a noite para pedalar, em se considerando aquela região e aquela época do ano. Poderia ser bem pior... À medida que subíamos, alguns ficavam para trás, outros iam para a frente, nessas horas aparecem mais as diferenças entre os que desenvolvem mais na descida, ou no plano, ou na subida. Mas, de um modo geral, o grupo permaneceu o mesmo, com o acréscimo de mais alguns colegas que ainda não sei bem o nome, mas que já estão virando "companhia frequente" durante as pedaladas, provavelmente por termos um ritmo parecido. Algumas paradas foram necessárias, para comer barrinhas de cereal, tomar goles de café da caramanhola, esvaziar a bexiga...

Após um tempo bem considerável, e "bem aproveitado", nesse belo trecho de estrada com um ótimo asfalto, chegamos ao ponto de janta, o Restaurante Franck. Ali me servi com uma dose generosa de macarrão, duas sobrecoxas enormes, assadas, que estavam muito saborosas, algumas batatas doces muito recomendáveis também, e alguma coisinha de salada. Estávamos bem de tempo, com média pouco abaixo dos 20 por hora, o que era bom considerando que dali em diante haveria muita descida, e um vento a favor provavelmente até Santa Cruz.

Ficamos parados em torno de 45 minutos, e a impaciência prontamente se estabeleceu entre meus colegas, o que é ótimo que aconteça pois foi essa tendência minha de "ir deixando o tempo passar" que fez com que minha média geral despencasse para menos de 15 por hora naquele mesmo ponto, no ano anterior...

Partimos e, se não era apenas descida, o caminho continha várias descidas, onde íamos geralmente o Vitor na frente, o Carlão em seguida, e eu atrás, numa linha de vácuo em que conseguíamos controlar nossas distâncias relativas sem precisar frear ou pedalar, apenas indo mais para dentro ou para fora do vento do ciclista à frente, o que era importante também para ver se havia algum buraco ou não (não havia, a estrada lá está realmente ótima!). Enquanto isso, o Graxa seguia sempre uns 500 metros à frente, no seu ritmo que por sinal era parecido com o nosso.

Sempre mantendo a atenção na paisagem, no horizonte, e sem contar minutos ou quilômetros, entramos novamente no acesso secundário e chegamos à Raabelândia, onde tomei um belo suco de laranja, ainda embuchado de tanta janta, e pedi um enorme copo de café preto, que coloquei, bem adoçado, na segunda caramanhola, junto com um outro tanto de água. Esse café, em doses regulares, vinha fazendo o seu efeito pretendido: controlar o sono, e anular algum período de bobeira, que pode ser perigosa à noite.

Antes de chegar à Raabelândia, uniu-se ao nosso grupo o Cesar Dosso, que infelizmente ao sair de lá para pegar sua bicicleta, percebeu que teve um dos seus dois faróis furtado. Me admiro como ele consegue estar sempre sorrindo e encarando bem as adversidades, pois foi isso que ele fez, tipo "paciência, vamos lá", eu acho que eu ficaria muito puto e excessivamente desmotivado se isso acontecesse...

Seguimos rumo a Rio Pardo. Aquele trecho foi muito significativo para mim pois, no ano anterior, o Cesar Dosso, o Ricardo Bolão (que também estava este ano, mas mais atrás) e eu, percorremos todo o trecho até Santa Cruz andando juntos, chegando lá pela manhã. Mais tarde, naquele dia, um a um, todos os três desistiram por cansaço. Este ano, nós três estávamos novamente na mesma prova, no mesmo trajeto, e no caso do Cesar e eu, pedalando juntos o mesmo trecho.

Seguimos em um pelotão de sete ciclistas, que rapidamente de dissipou pois o Cesar foi na frente com mais gente. No Posto Dragão, nos reunimos novamente, comi um pão de queijo onde coloquei muito açúcar dentro (receita minha para aumentar o valor calórico sem aumentar os custos...), e sem muita enrolação seguimos em frente. Logo em seguida, o Carlão furou o pneu, e eu voltei para dar um auxílio. Quando ele já estava quase pronto, ele disse que eu podia seguir, e foi o que fiz. Andei um bom tempo sozinho, com minha luz bem fraquinha do farol vagabundo (o farol do capacete já estava sem bateria), mas felizmente também ali o asfalto era bom, e eu andava sobre a pista. À esquerda, uma enorme lua, já vermelha, se preparava para afundar no horizonte, e quando vinha algum carro, eu aproveitava a luz do próprio carro para observar o acostamento, e descer para fora da estrada.

No pedágio desativado de Santa Cruz, parei para comer duas bergamotas, e o Carlão me passou. Saí atrás dele, e demorei para alcançar, e assim fomos indo até chegar em seguida em Santa Cruz do Sul. Felizmente eu estava com ele, porque a localização exata do PC não estava sobre o trajeto do GPS divulgado no site: estava uma quadra para o lado. Como o Carlão conhecia, segui ele e lá chegamos nós.

Comi o sanduíche de cacetinho feito sob encomenda para o audax, e tomei o caríssimo café com leite que eles servem naquele PC. Pelo menos dessa vez eu sabia que era caro antecipadamente, e além disso não tomei desavisadamente TRÊS como tinha feito no ano anterior...

Ao contrário do Franck, que é um PC frio, o PC de Santa Cruz é bem quentinho. Saímos dali com aquele pesar, mas bastante motivados. Estávamos bem de média, e a alimentação regular, junto com a hidratação e cafeinização constantes, estavam surtindo o efeito. Bergamotas da organização foram especialmente importantes, pois são praticamente um Gatorade natural. Sem falar que o intestino estava trabalhando bem, o que nem sempre acontece em provas longas noturnas (novamente, o horário mais natural da largada, durante a tarde, pode ter a ver com isso).

Logo saímos de Santa Cruz e começamos a subir a serrinha. A força na perna ainda estava boa, e mesmo sem uma marcha muito muito leve, foi possível subir devagarinho sem se matar. O pelotão esticou aos poucos, e durante a subida uma neblina forte começou a atuar. Ao virar o topo, começamos a descer, e não me senti confiante para acompanhar o ritmo de descida do resto do pessoal. Muita neblina, curvas, tachões, ônibus e uma quantidade grande de veículos. Afinal de contas, agora estávamos em OUTRA estrada, com muito mais movimento.

Terminada a descida da serra, meus companheiros definitivamente foram embora, e logo em seguida passei pelo Schuster, que era um PC tradicional nas primeiras épocas do Audax, e entrei na estrada do Vale Verde.

Aos poucos, o barulho de trânsito pesado foi ficando para trás, e começou o barulho de galos, passarinhos e cachorros. A neblina estava forte, e esse súbito alívio de tensão teve um efeito enorme sobre o sono, que começou a se manifestar com uma força irresistível... A ausência de uma referência de horizonte, a ausência mesmo de cor nas coisas - estava tudo cinza - fez com que as pedaladas, e o suceder das pedaladas, assumisse um caráter profundamente monótono, não que fosse desagradável, mas parecia que tinha aberto um tampão da energia dentro de mim, e cada vez mais ia ficando sem energia, sem energia...

Parei um pouco. Comi alguma coisa, tomei um golaço de café, outro de água, e segui. Eu ia indo, com a cabeça pendendo para o lado, naquele silêncio, sem nenhum outro ciclista ao redor, sem praticamente qualquer outro ser humano ao redor exceto um carro que passava a cada dez minutos se tanto, naquele horário (por volta das sete, sete e meia da manhã). Os pensamentos, que normalmente formam uma linha contínua, um levando ao outro, estavam se misturando, como as roupas se misturam quando estão numa máquina de lavar, e linhas de raciocínio absurdas se formavam em um fluxo sem fim, e sem controle, embora consciente. Idéias, impressões, sensações do ambiente ao redor, já estavam se misturando.

Nesse meio tempo, não sei se antes ou depois de comer, ou antes ou depois de delirar de sono, apareceu a subida entre Passo do Sobrado e Vale Verde. Juro que eu dei graças a Deus porque a subida apareceu, pois ao menos era uma referência geográfica naquela paisagem de neblina onde o horizonte tinha o tamanho do planeta do Pequeno Príncipe, e até os açudes da beira da estrada pareciam uma lagoa sem fim que se emendava com o céu...

Foi assim que cheguei ao trevo de Vale Verde, aquele trevo esquisito com uma curva perigosamente fechada no meio... Ao passar por uma entradinha de fazenda, pensei: "é aqui que vou tirar um cochilo". Tirei algumas coisas do bolso, larguei a bike no chão, escolhi um tufo de grama, e deitei com o tufo encaixado bem entre as escápulas, para me virar para trás e dar aquela "estralada" nas costas, esticando os braços pra cima. Bem agasalhado, ali fiquei por não sei quantos minutos, até que acordei quando passou um carro, com o barulho.

Abri os olhos, respirei fundo, me levantei devagarinho, e percebi que o sono tinha passado um pouco. Subi na bicicleta, e comecei a pedalar, a velocidade foi aumentando, aumentando, e consegui retomar um ritmo de cruzeiro decente.

Esse ritmo durou no máximo cinco quilômetros. Embora o sono já tivesse passado, ajudado sem dúvida pela lenta dissipação da neblina, que permitia agora sim apreciar novamente a paisagem rural e a visão do horizonte e do belo relevo da região, agora o que incomodava era a fome, a falta de energia causada pela falta de comida. Estava já sentindo falta de SAL.

Eu sabia que essa hora chegaria, e portanto encostei a bicicleta num barranco de grama, sentei no acostamento de costas para a estrada, e saquei um saquinho de Pingo d'Ouro, o qual comi quase todo, mastigando grandes punhados de cada vez, sentindo aquela massa de farinha salgada crepitando dentro da boca, e transferindo todo o maravilhoso sódio (muito dele oriundo do glutamato de sódio) fluindo pelo meu sangue. Começava a ficar com pressa e com vontade de voltar a pedalar, mas a vontade de continuar mascando os punhadões de salgadinho era maior, e assim fui. Um senhor passou caminhando pelo acostamento, carregando uma sacola de mercado com algumas caixas de leite dentro. "Isso está errado", pensei eu, "um senhor como esse deveria ter uma vaca para tirar leite dela". Mas o senhor foi caminhando, muito tempo depois ele ainda estava somente um pouco mais adiante, na estrada... Vai saber de onde vinha, ou que horas tinha acordado naquele domingo.

Dali a pouco dois ciclistas me passaram. Pelo sotaque, eram "gringos". Logo fui "atrás" deles, que mantinham um ritmo bem firme. Me mantive geralmente ao longe, observando-os ao longo das sinuosas baixadas entre Vale Verde e o Pesque-Pague Panorama, já com intensa iluminação do sol nas colinas, e algumas massas de neblina ainda presentes em um ou outro ponto. Depois de passar o Posto Charrua em uma dessas baixadas, eu sabia que haveria um predomínio de subidas, pelo menos uma delas muito chata, antes de chegar no Panorama. Nessas horas, conhecer um pouco o caminho é a melhor coisa que tem, pois a gente não precisa (não deve!) contar quilômetros, e pode isso sim usar esses pontos de referência conhecidos, de preferência morros distantes, para "navegar" até o destino. Olhar para eles, em seu lento movimento de rotação enquanto percorremos a paisagem, faz o tempo passar mais rápido. Por outro lado, olhar para os números do velocímetro, em seu lento movimento entre a troca dos quilômetros, das centenas, e mesmo das dezenas de metros, faz o tempo passar MUITO MAIS DEVAGAR!!!

Chegando ao Panorama por volta das dez horas da manhã, portanto ainda com oito horas para pecorrer cem quilômetros, foi já uma enorme conquista. No ano anterior, cheguei até ali dentro do carro de apoio. As perspectivas agora eram concretamente positivas, e aquilo de que eu precisava para concluir, eu tinha: ânimo, condições musculares, condições de ficar bem acordado, tempo, e comida disponível.

Meus companheiros de até então já estavam saindo, e foram embora logo depois que eu cheguei. Rapidamente solicitei meu prato de macarrão, e sentei ao sol para comê-lo. A porção foi generosa, e eu comi tudo. A dose extra de sal e gordura do macarrão garantiriam o suprimento até a chegada, podendo então basear meus próximos lanches em líquido e doces. O Cesar Dosso chegou enquanto eu almoçava, para minha surpresa (achei que ele já estava lá adiante!) com uma cara horrível, e contou que ele tinha se perdido em Santa Cruz por quase uma hora antes de achar o PC. Em solidariedade, adiei minha saída para esperar por ele, mas no fim das contas (maldita distração!), ele é que acabou esperando por mim enquanto eu me arrumava...

Saímos por volta das onze da manhã, em um pelotão com uns sete ciclistas, e como eu tinha deixado o telefone carregando de novo, me enrolei com o GPS, ficando pra trás do pelotão logo antes da primeira grande descida. Corri como pude, mas não consegui alcançar o pessoal, que também se dispersou aos poucos. O trecho entre o Panorama e General Câmara tem uma longa série de subidas e descidas, com predomínio de subidas, e depois outra igual, com predomínio de descidas. Esse é outro bom fato pra se conhecer, pois sem contar os quilômetros, e num ritmo apertado para conseguir alcançar o pessoal que ia se afastando (só conseguir ficar vendo um dos ciclistas, que vez que outra ficava visível ao longe em alguma curva), logo logo eu havia chegado no pé da série de subidinhas, depois no ponto mais alto do trecho (por sinal bem bonito, pois dá pra enxergar relativamente longe), depois no final da série de descidas onde está, logo ali, o Posto Ramé.

Foi uma enorme alegria e um alívio chegar no Ramé e descobrir que todo o pelotãozinho que eu perdi na saída do Panorama tinha resolvido parar ali. Imaginei que isso aconteceria, porque a essa altura de um Audax tão longo, e com tanto tempo sobrando, é uma estretégia muito mais esperta fazer um trechinho por vez, não deixando o desgaste se acumular, do que tentar "tocar tudo tri loko azar", e arriscar ficar realmente cansado ou com fome no meio da estrada, longe de algum comércio ou ponto confortável para descansar.

Ali no Ramé foi um local onde além de novos lanches, muitas peças de roupa foram tiradas. A manhã fresca de neblina já tinha se transformado em uma tarde de muito sol, apesar de a brisa cada vez mais forte continuar fresca, como é comum nesta época do ano. Já novamente renovados para seguir pedalando, o Alexandre Pedroso, que havia saído junto com a gente do Panorama, viu que seu pneu estava furado. Ele começou a consertar, e eu avisei que ia indo devagarinho. Na verdade quase todo mundo me seguiu, e o Cesar falou que ia esperar o Pedroso na ponte do Jacuí. Fomos pelo trecho ondulado, uma ondulação após a outra, num ritmo moderado, conversando distraídamente, conversa que fez com que a ponte chegasse logo. Na descida da ponte, com a curva à esquerda, tomamos uma direção diretamente contra o vento. Um amigo com guidão aerodinâmico previsivelmente assumiu sua posição aerodinâmica e apertou o ritmo. Não consegui acompanhar por muito tempo, e um outro camarada de Teutônia, que estava de mountain bike, me ultrapassou e foi atrás do aerodinâmico. Assim novamente o pelotão dissipou, e eu ia vendo os dois cada vez mais de longe, enquanto percorríamos o perímetro de São Jerônimo e alinhávamos em direção a Charqueadas.

Naquele trecho de acostamento ruim e algumas subidas longas, entre São Jerônimo e Charqueadas, veio vindo de longe um ponto vermelho, o Cesar Dosso, que tinha ficado apenas cinco minutos na ponte esperando o Pedroso, e percorremos o trecho urbano de Charqueadas juntos. Um pouco antes do Postaço, o Pedroso nos alcançou e chegamos os três praticamente juntos no Postaço.

Este ano, logo que foi marcado o Audax 300 no trajeto clássico de Vale Verde, eu havia "prometido" que tomaria um café com pastel no Postaço com o Cesar Dosso, a convite dele. Infelizmente isso não foi possível, pois minha bike havia quebrado naquela prova. Pois dessa vez, finalmente, ao chegarmos no Postaço, a primeira coisa que fizemos após assinar a planilha de controle foi pegar os tais cafés (mocaccinos, que são docinhos), e fazer um merecido brinde! Além do café, comi alguns chocolatinhos e alguma bergamota.

Não ficamos muito tempo ali, e logo saímos para o trecho final, por volta das três da tarde, tendo portanto três horas restantes para fazer os últimos 50 km. No trecho plano que vai até as plantações de eucalipto, o Cesar foi puxando, e eu fui aproveitando o vácuo enquanto pude, quando ficou forçado demais eu aliviei o ritmo e ele foi embora. Ao chegar nas plantações de eucalipto, que são onduladas, usei o truque da "referência geográfica" para contar quantos "picos" existem naquele trecho, até chegar na 290. Acho que contei cinco, mas não tenho certeza. O fato é que passa rápido, e logo a gente está desembocando naquela estrada.

Ali, fiz questão de parar no pedágio, onde a Marga e a Marizete estavam conferindo a passagem do pessoal. Fui ao banheiro, e entrei na casinha do pedágio para pegar um copão de café bem doce. Comi alguma coisinha, e quando passaram o Luciano do Rosario e o Gustavo Migliavacca, eu me animei de acompanhar eles. Subi na bike, guardei minhas coisas, e fui. Logo em seguida, eles estavam parados,e eu fui deixando a bike perder velocidade, parando atrás deles. "E aí!", eu falei, e eles "Bah, tudo certo, o bom é que agora O VENTO ESTÁ A FAVOR!". Quando eu ouvi aquilo, me deu uma revolta interna profunda, pois o vento estava, há várias dezenas de quilômetros já, obviamente e cada vez mais CONTRA! Mesmo assim, quando eles se puseram em movimento, fui acompanhando eles, para formarmos um grupo. Entretanto, rapidamente começou a dar "coceira na perna", e eu me despedi deles, seguindo adiante.

Ali naquela planície reta, que tem por volta de 17km, é que o truque da referência geográfica mostra todo o seu valor. Se a gente olhar reto pra frente, vai ver exatamente a mesma estrada durante 17km, exceto um único ponto em que a estrada faz uma curvinha quase imperceptível, ou em que existe algum armazém de grãos, ou o aeroclube, na beira da estrada. Entretanto, se a gente olhar para a direita, tem um morro comprido, que vai se terminando em direção à estrada. Esse morro é costeado por uma estrada de terra que desemboca na 290, tem uma placa "Pesque Pague Havaí" ou algo assim. Dali faltam 10km para a 116. E dali já podem ser vistos, lá na frente tanto os morros de Porto Alegre, quanto, à esquerda, algumas torres de alta tensão que costeiam a 116, e à direita, com alguma atenção, lá na frente, os veículos maiores passando pela 116, no trecho que vai pra Guaíba. Dali, é só ir trocando de ponto em ponto, sempre preferindo olhar mais para o longe do que para o perto, e aos poucos vai chegando o viaduto da 116.

Chegar na 116 foi bom, porque a mudança de direção da estrada, e o fato de haver algumas árvores, fez com que o vento contra desse uma aliviada, permitindo aumentar um pouco a velocidade. Em Eldorado do Sul, uma curvinha para a direita e o vento pegou um pouco mais contra. Subir a ponte móvel foi mais fácil do que eu imaginaria, aparentemente o extensivo treinamento prévio, bem como o cuidado atencioso com alimentação e hidratação durante a noite, tornaram possível subir a ponte com relativa tranquilidade. De longe, avistei o Pedroso subindo a ponte a pé, mas ele começou a descer antes que eu alcançasse ele.

Na descida da ponte, e logo em seguida depois da curva, o vento ficou 100% contra, e eu via o Pedroso ficando cada vez mais e mais próximo. Segui pedalando "resignado", me aproximando cada vez mais dele, e reconhecendo a paisagem de Porto Alegre com cada vez mais detalhe, sabendo que a chegada estava próxima. Antes da penúltima ponte, passei o Pedroso, e já podia ver a fatídica ponte móvel do Guaíba.

Apesar se eu não ver as pessoas falando muito a respeito, nem logo após as chegadas e nem nos briefings, pra mim a ponte do Guaíba é tão estressante e tão perigosa, mas TÃO perigosa e estressante, que ela quase anula a alegria de completar a prova, que acaba sendo substituída pelo alívio de ter sobrevivido, e pela profunda revolta com o descaso generalizado com a segurança de qualquer coisa que tenha menos de uma tonelada de aço em sua composição.

De longe, eu via a ponte com sua sinalização do asfalto nova, cheguei a pensar "nossa, será que asfaltaram e pintaram a ponte?" Confesso que não tive oportunidade de verificar com atenção, pois estando exposto ao que Eduardo Galeano chamou de "rajada incessante de automóveis", e ônibus enormes, e caminhões enormes, eu passei os poucos metros da ponte alternando quatro ou cinco vezes entre ciclos de subir na velocidade menos lenta possível, cuidando no retrovisor; acenar desesperadamente com o braço esquerdo, quando vinha algum veículo imenso como alguma carreta bitrem ou ônibus trans-continental; e parar a bicicleta - literalmente parar - e ficar encolhidíssimo à esquerda, enquanto os monstros de metal, sem espaço para ir sequer meio metro para a esquerda, passavam rugindo seu bafo quente em minha orelha insone... Por algum milagre, após uma curta espera depois do vão móvel, a rajada arrefeceu por instantes, e eu pude mergulhar afoito na alça de acesso à Sertório, tendo que optar entre andar grudado nos veículos que vinham rapidamente fazendo a curva, ou entrar com ambos os finos pneus nas montanhas de lixo metálico que recheiam a "sarjetinha" do viaduto... Felizmente nenhum pneu furou, e ao sair do viaduto não tive de disputar espaço com os veículos que vêm por fora do viaduto. Até mesmo depois, na ruazinha teoricamente tranquila de retorno ao DC, no retrovisor deixaram de aparecer veículos acelerando em minha direção como se eu fosse invisível... Pode ser paranóia, mas é uma paranóia que me parece bem real, pois a experiência dos anos só vem CONFIRMANDO a validade e a necessidade desse cuidado adicional e dessa desconfiança permanente com tudo o que tenha motor.

Chegando no DC, às 17:00 (ainda com uma hora disponível), fiquei feliz por ver os vários amigos que me parabenizavam, comi uma alaminuta, e em seguida peguei a premiação e fui para casa. Não estava me sentindo destruído, apesar da dor nas pernas e nos joelhos que surgira nos últimos trechos contra o vento, mas também não me sentia eufórico. Acho que, por um lado, o fato de que todos os 400 km saíram "dentro da planilha", conforme o previsto, e sem nenhum problema mecânico ou intercorrência de qualquer tipo, fizeram com que os últimos quilômetros, e em especial o momento da chegada, não fossem mais do que a conclusão de um percurso profundamente previsível.

Embora isso não se traduza na satisfação eufórica, ou de alguma outra forma intensa e até comovente que se costuma ver em algumas vitórias ou chegadas, isso me deixou profundamente feliz. Depois de uma série de provas não-concluídas, ter conseguido, justamente em uma prova com distância inédita para mim, ver confirmadas e bem sucedidas todas as minhas estratégias de preparação e execução, foi uma ENORME vitória, e um imenso estímulo para seguir investindo na modalidade.

Como comentário pós-prova, algumas coisas se mostraram dignas de nota:

1) Bolsa de guidão, um item que não pretendo deixar de fora em nenhum audax. Ao contrário do bagageiro traseiro, que além de ser ele próprio um peso, requer extensores que são chatos de mexer, ou que mesmo nas bolsas que não usam extensor requerem que a gente pare de pedalar para pegar algo, a bolsa de guidão tem essa pequena mas fundamental característica: é possível pegar coisas, e em especial COMIDA, sem parar de pedalar. Parar pode significar perder um grupo, o que faz muita diferença. Por outro lado, não pegar algo de que se precisa, seja comida seja roupa, faz com que a gente comece a operar "no vermelho", e isso sempre cobra um preço mais cedo ou mais tarde;

2) Barras de cereal. Chocolate enjoa. Pastelina enjoa. Pastel enjoa. Barra de cereal não enjoa. Ela desce redondo, estufa, é "natural e saudável", e é acesível e fácil de encontrar. Usarei intensamente no futuro.

3) Faróis e luzinhas. Quando eu comecei a fazer Audax, em 2004, a maioria dos faróis bons era halógeno, e os leds ainda eram uma novidade, sendo em geral muito ruins para iluminação. De lá pra cá, não se pode mais falar seriamente em usar halógeno, e os faróis com led estão absurdamente bons, embora os realmente bons sejam caros. Eu fui para a prova usando no guidão um farol ruim a pilha, e um farol melhor, no capacete, recarregável via USB. Pois no meio da noite, quando eu estava sozinho, o farol bom acabou, e eu tive de continuar com o farol ruim. Deu pra continuar, mas eu vou dizer pra vocês, depois que tu vê a diferença, depois que tu te acostuma e ENTENDE a diferença entre um farol que até funciona e um que REALMENTE funciona... Conclusão: vou compar um farol bom ainda este ano, mesmo que seja caro. Outra coisa são as luzes traseiras e os coletes: faz MUITA diferença entre os que são ruins e os que são bons. Quando peguei carro de apoio no último 300, pude ter a visão do motorista (mas com avaliação de ciclista) e realmente FAZ DIFERENÇA quando a gente passa de carro por um colete bom ou por um colete meia boca.

4) Preparo "psicológico". Eu mencionei no início do relato que às vezes a gente se sente, pedalando à noite, como se estivesse atravessando o oceano de canoa. Uma sensação de DESAMPARO. Sensação que em momento algum eu senti durante este 400, e eu acredito que se deva à forma como comparamos a nossa possibilidade com relação ao percurso que nos aguarda. Quando a gente está em dúvida, achando que vai ser difícil, é bem diferente do que quando a gente "tem reserva", e sabe que, se por um lado não vai ser fácil, também não vai ser assim "quase morrendo". Nesse sentido, conhecer o trajeto é importante, já ter feito pedaladas longas é importante, e até por vezes simplesmente ter fé (talvez até uma fé sem noção) pode fazer a diferença. Temos visto muitas pessoas que recém começaram e fazem a série inteira, uma atrás da outra. Eu admiro essas pessoas, acho que, de certa forma - e de certa forma até contraditoriamente - esse é o verdadeiro espírito randoneiro: encarar a aventura, e enxergar a grandiosidade disso, mesmo que na longa estrada sejamos na verdade, cada um de nós, muito muito pequenos.

Relato brevet 400 km


Várias vezes pensei em escrever o relato sobre meus "brevet" mas sempre deixei para depois e não acabava escrevendo. Nesta madrugada acordei com vontade em escrever o relato da AUDAX 400 KM. Para esse audax era ponto de honra devido ter "abortado" no 164 km o ano passado do tão famoso "Ice Audax 400 km", devido a temperaturas negativas e falta de experiencia. Mesmo tendo feito anteriormente duas provas de 200 km e 300 km.

Deu-se a largada o coração batia mais forte, pois na minha cabeça vinha as situações pretéritas de uma frustração. Mesmo sem treinar muito depois do 300 km, esta confiante pelo apoio de várias pessoas que me rodeiam de uma formo outra foram importantes. Mas essa parte eu conto depois.

Na saída um dos meus parceiros se atrasou... O frio na barriga começou... será que na saída vai dar problema. Mas não foi só detalhe. Aos pouco fui me afastando do meus amigos do pedal, pois estavam esperando outro parceiro. Até depois da ponto e Gustavo Migliavacca estava comigo conversamos muito sobre se audax "íamos falando, começamos juntos terminamos essa prova"... a papo vem e papo vai... quando vejo estava falando com outro ciclista o Gustavo ficou para trás para meu espanto...

Comecei acompanhar dois ciclistas de Speed da cidade Sapiranga, eles estavam em uma média alta, mas eu estava tranquilo. Achei interessante a técnicas deles de pedalar "com amigos ocultos". Esses "amigos ocultos" eles denominaram "ciclistas caxienses", e eles tinham sempre que superar esses amigos ocultos... Dei muita risada com a situação, fiquei alguns quilômetros no vácuo deles, para ir me poupando e já dava sinais de "vento contra". Mas de repente depois de alguns quilômetros estava no meio deles. Aí eles falaram: “então tu é de Bento?” Falei sim sou de Bento, eles disseram não sei se tu não notou estamos de "cuidando faz tempo", e agora sempre fica alguém da tua retaguarda acho que agora tu vai ser "nosso amigo oculto".

Mas claro tudo isso era uma piada !, Pois quando tu pedala e conversa tu não sente tanto as subidas, "vento contra, etc, etc. Aí pelo km 90 começo a escurecer, fui baixando o pedal, para ver se aparecia meus parceiros... mas nada. Estava me sentindo desconfortável por não ter eles por perto.

Parei, troquei o óculos escuros para óculos amarelos, tomei aquele "gatorade" violento, sou ciclista que tomo muita água, tipo camelo, depois que aprendi que para não ter cãimbras, tem tomar muita água e Gatorade (na verdade soro caseiro com essência) chegam dar sinal devido ao alto esforço, mas respirar fundo e hidratar e diminuir a força do pedal o fantasma da cãimbra some.

La me fui pedalando e cantando... para o PC 1(Pantano Grande) chegando ás 20:30, carimbei o passaporte, peguei um lanche(um sonho recheado, 1 copo de nescau e folhado de frango), pois ai pelo km 100, tive que recorrer a barra de proteína, pois o corpo estava em déficit de energia. Quando comecei a comer a alegria toma conta olho para a entrada do PC1 vejo a galera entrar...

Bah parece que isso é uma coisa de outro mundo, toda galera ali não tem preço e um deles diz: “- Bah Luciano tu puxou forte....” kkk. Mas que nada coisas de pedal... ficamos parados 45 min.... Ai a Ninki, meteu uma pressão disse que os ciclistas que saíram as 19:30(para ver que tem ciclista que pedala muito) recém tinha chegado no PC2(Encruzilhada do Sul) e nós estávamos ali parado..kkk Juntamos a galera e metemos o pedal novamente, eu como experiente da turma avisei que tinha muita subida até Encruzilhada, mas cada foi no seu ritmo ficamos para trás eu e Gustavo Migliavacca, pois eu sabia que ele teria um pouco de dificuldade na subida, pois ele não fez "UP" na bike dele..kkk , escuridão toma conta céu estrelado e uma linda lua vem nos contemplar, juntamente com friozito não tão forte neste momento.

Devido ao pedal forte da subida de Encruzilhada, até a metade eu pedalei com ele, sempre ia dizendo Gustavo está vendo aquela luz la em cima? ... depois deve ter mais uma duas subidas e deu...kkk Tudo isso para motivá-lo e eu com pé atrás ainda com o meu pretérito na memória. Acabei me afastando dele devido cada um impõe um ritmo na subida. Chequei às 23:51 no PC2 com fome, comi li em alguns relatos a "batata doce" na janta tem o seu valor...hehhe

Acabei não comendo carne, pois o frango tinha aspecto de "avestruz", coxas grandes e escuras ao olhar para prato não apetecem. Mas comi várias complementos que me alimentaram bem até o PC3(virtual). Já passavam 20min parados e frio tomava conta... o amigo e parceiro Fernando Sperotto corria ao redor do pátio do posto de gasolina para aquecer...

E o frio para quem possa interessar é muito ruim (ano passado eu congelado) no mesmo PC... Aí começa bater um medo interno, mas o mesmo tempo motivado todo mundo colocando jornal embaixo dos "quebra-ventos" e ansiedade toma conta... alguns dos parceiros estavam se arrumando , e eu não posso ficar muito tempo parado, devido ao frio e medo.

Convidei o Gustavo para meter pedal, pois os outros parceiros iriam nos alcançar se fossemos um pouco devagar, foi perfeito! Depois alguns kms, estávamos todos juntos, dando risadas para espantar o frio. Chegamos ao PC3(virtual) o mesmo que o 2, mas não tinha ninguém tínhamos que comprar alguma coisa para apresentar o cupom na chegada...

Tudo certo começamos a sai em direção ao PC4(Sta cruz do Sul) o além do frio a neblina nos abraçava forte... Ai teve um dos parceiros que disse:" - O que estou fazendo aqui, devia estar em casa com minha esposa dormindo de conchinha..." foi motivo de muito gargalhada e para mim um alívio, pois tinha feito mais quilometragem e o meu "pretérito fantasma" que tanto me incomodava foi para o espaço...

Alegria toma conta e força no pedal, cada um com seu ritmo, ficamos para trás eu e Gustavo... íamos contanto do inicio das nossas pedaladas, quando fazíamos 40 km e nos sentíamos realizados... e papo vem e papo vai e Sta. Cruz não chega nunca... pois o inicio do cansaço e frio toma conta... e de novo eu com argumentos das luzes...para motivar, pois ano passado me deu o trabalho de fazer de carro o trajeto, mais ou menos eu sabia o que estava acontecendo.

De repente avistamos a cidade e começamos contar as 4(quatro) sinaleiras.... que eternidade... quanto apareceu a quarta saiu grito de alegria estávamos chegando no PC4(Sta Cruz) Km 260... La juntamos toda a galera 6(gigantes e valentes) alegria e euforia toma conta. Vamos la nos comer, olho de soslaio para o Gustavo, com os olhos vermelhos de sono, cansaço e fiquei a pensar, será que ele vai "abortar" a prova.

Mas eu conheço ele como poucos conhecem... esse cara é valente e não vai desistir... Só faltava mais + - 50 km, para chegar ao almoço no PA(pesque e pague). Cada parada em pc e conversas são motivos para carregas as baterias... coisa mágica. Saímos do ar condicionado para encarar o frio 6 a 7 graus...bah... "dor por tudo", queixo batendo... la foram os 6 guerreiros... por confusão do GPS(kkk) por incrível que pareça erramos a saída, perdemos +- 30 min... e isso para nós faz uma diferença no final ia fazer falta.

Mas deu tudo certo achamos RSC 287-281 na saída de Sta cruz... ali foi o divisor novamente, cada um com seu ritmo, pois a subida e grande com curva e com nevoeiro que mais parecia um" show pirotécnico com muito gelo seco". Mas em compensação depois desta longa subida tinha a descida... quase o obvio...kkk mas no cansaço nada é obvio.

Mas quando eu vi a placa indicando General Câmara, pensa em alguém muito feliz, pois no meio deste percurso tinha PA(com almoço), depois dali era barbada era mais 100 e uns quebradinhos...kkkk

O pedal rolava solto, começou aparecer o tão agraciado sol que tantos nos ilumina e nos aquece. Devido a estafa, começa a puxar flash (do sorriso dos filhos), boa sorte do amigos e amigas em geral, seria quase impossível descrever a todos , tudo para ajudar... e por incrível que pareça o ser humano quando chega ao seu limite a força é divina..., e dele pedal, as vezes olhado para para trás para ver ser aparecia o parceiro... entre, partes de sol e nevoeira... saí do meio da neblina o Gustavo.

Bah que emoção, o cara ta ali... parece que as pilhas vão se carregando novamente. Seguimos juntos até o PA(almoço), outros parceiros já estavam algum tempo la. Chegamos la e eles saíram... Ai quando eles estavam saíndo o Rodrigo Rubbo e Fernando Sperotto pediram estávamos bem e Fernando olhou para mim eu disse: - "quero ver vcs lá".... bah tudo é motivador incrível, simplesmente mágico...tinhamos 7h ainda para fazer apenas o restante da prova.

Aparentemente tranquilo. Saímos do almoço em direção ao PC5(Charqueadas) a média começou a baixar, claro as pernas já estavam tão cansadas pois estávamos muito tempo pedalando. Fizemos várias paradas estratégicas e algumas empurradas na bicicleta, para mudar a força muscular... tudo certo. Chegamos em General Câmara calibrei os pneus 60 libras tudo ajuda... até então estava com 55 libras... para ver que 5 libras fizeram a diferença para um cérebro cansado. Bah ! Chegamos em Charqueadas no P5(postaço) outra euforia toma conta.

Estrategicamente comida , pois o bicho ia pegar para frente quase 24h pedalando... o corpo começa pedir ajuda... Sai um pouco antes que Gustavo, pois sabia que ele precisava descansar. Para ajudar depois do postaço começou o vento contra... nem sei se era muito forte, mas sei que atrapalhava muito, novamente comecei olhar para trás para ver se via o Gustavo e nada... estava chegando na 290 perto do pedágio que leva a POA, do nada aparece o Gustavo, novamente fiquei feliz ver o parceiro.

Novamente pedalamos juntos e bendita frase "começamos juntos e vamos terminar junto"... boraaaaaaaaaaaaaaaaaa . Passando o pedágio encontramos uma figura ímpar chamada Marga Comassetto que disse: -eu pedi para o vento parar...por incrível que pareça o média começou a subir...kkk só ilusão, pois é uma reta extensa sem ponto de referência, tu pedalada e nada acontece...

Aí passa por nós um dos monstros dos Audax o Helton Moraes e diz o vento e contra e não a favor que balde água fria...kkk, olha só o poder de uma palavra(contra ou favor) sentimos na essência. Mas dele pedal... parando esticando pedindo a Deus, Nossa Senhora de Caravaggio, todos os santos... faltando uns 15 km, puxo o último gole d'água do camel back , as duas garrafinhas sem "gatorade" .

Bah mas faltam 15km, boraaaaaaaaaaaaaaa.... quando avistamos a ponte do rio guaiba a frenesi toma conta.... e o Gustavo diz: - vamos pela passarela empurrar a bicicleta, eu não, não vamos pela linha branca na manha.. neste momento as lágrimas escorrem mas como estava de óculos espelhados ninguém iria ver.

Só agradecia por tudo dar certo... em todos os sentidos... Damos sorte ao atravessar a ponte... pois acredito estávamos iluminados por tanto esforço, conseguimos passar direto em direção a shopping.

Passamos pela última sinaleira e última subida, nunca fiquei tão contente e ver uma propaganda "DC NAVEGANTES" AÍ COMEÇAMOS A GRITAR.... AS BENDITAS PALAVRAS "TERMINAMOS JUNTOS C....." NÓS SOMOS F... ao entrar no patio do DC navegantes os parceiros comemorando não tem preço...

Por isso encerro o meu relato com a seguinte frase "AUDAX É PARA POUCOS".
Abraço a todos que de uma maneira o outra torceram por mim (nós)... 7 gatorade + 3 energeticos e 6 a 8 litros de água. Sempre bem hidratado e alimentado, cabeça boa e corpo bom(treino) vai dar brevet no audax.

Além daquela maldita placa...




Existe um lugar com significado particular para mim, entre General Câmara e Charqueadas, onde há uma placa, que marcou muito a minha trajetória randoneira até aqui. Para alguns amigos que me conhecem um pouco melhor, sabem que no ano passado não completei o BRM400 do Gelo (assim apelidado). O ponto de parada, obviamente, foi ao lado daquela maldita placa. Considerando que a grande maioria dos brevets da SAC passam naquele trecho, reencontrei-a muitas vezes... aquilo me serviu como uma lição à ser aprendida.

Treinos incansáveis, lesões e horas de dedicação me deram a possibilidade de encará-la novamente...

Considerando que anteriormente tive um bom desempenho no BRM300, estava determinado que os 420km desse Brevet fluiriam naturalmente. Teria que superar os desafios da estrada, mas não a distancia... lição que aprendi com randoneiros experientes que sempre tive a sorte de conhecer: o Audax é um fim. Porém os problemas que tive na estrada, colocaram à prova a possibilidade de eu concluir esse desafio.

Então, vamos aos fatos...

Saindo de casa rumo ao briefing passei por momentos emocionantes em família... esposa grávida e nossa filha de seis anos me abraçaram muito... sendo que a pequena chorou, já com saudades... quem ama sabe o quando isso toca.

Na chegada ao ponto de partida o encontro de amigos, sorrisos, fotos e o briefing. Estava tranquilo, até demais, para iniciar a jornada. A dali seguimos, um pelotão semelhante ao do ultimo Brevet... fortes na largada, deixando para estabilizar o ritmo depois de 1h.

Nos mantemos unidos em pelotão até Butiá (80km), onde furei o pneu a 500m do ponto programado de descanso, acabei trocando meu descanso por uma troca de câmara, com pôr-do-sol na beira de um posto de combustíveis... viria a furar mais 2 até Pantano Grande.

Chegando no PC, aquele copo de café com leite que me lembrava muito bem o que passei a um ano... quando cheguei mal, com frio e vendo gente casca grossa desistir. Mas enfim a parte melhor estava por vir... como gosto de escalar, ir a Encruzilhada é divertido.

Saímos novamente em grupo e logo que pude resolvi aumentar o ritmo para chegar logo, queria descansar e trocar a camisa... conforme tinha planejado, para descer "seco"e com o mínimo de frio até o PC3. Aguardei meus companheiros durante a janta e na chegada vi que não estavam bem... um com indigestão e outro com uma forte dor na perna. Não iria deixá-los mas também precisava manter meu foco, decidi então pelo meio termo. Manter o meu ritmo e fazer paradas mais frequentes para nos agruparmos sempre que preciso.

Mantendo o ritmo bom que toda descida proporciona, chegamos bem ao Raabelândia, PC3... onde me alimentei bem e tive uma surpresa ruim, um farol furtado por algum ladrãozinho safado. Aquilo meu deixou chateado... estava começando a acumular problemas para a prova. Pelo menos eu ainda tinha 1 farol, o que não me impossibilitou de seguir adiante.

Parada no Posto Dragão para um café e conversa com amigos e a brigada militar que fazia ronda no local, nos dando segurança.

Na entrada de Santa Cruz, um dos amigos acerta um buraco e precisamos parar... entrando no trecho urbano orientados pelo GPS, tivemos problemas, acumulando muito stress e perda de tempo... o que me deixou bem desmotivado. Porém existem sentimentos que eu exercito mais que o ciclismo: determinação e resiliência. Esses dois sentimentos unidos àqueles 1% de teimosia que aprendi com um grande amigo, foram determinantes para seguir em frente. Teria mais diversão... a subida de Santa Cruz.

Dali pra frente pensava em somente 3 coisas... uma promessa, uma placa e minha filha.

Promessa, é divida... tinha que pagar. Precisava alcançar um amigo para tomar um cappuccino no Postaço (Charqueadas), e selar de vez uma luta que começou a um ano. Porém antes tinha ela, aquela maldita placa. Almocei em General Câmara e parti pro meu verdadeiro desafio: passar daquele marco. Os quilômetros foram diminuindo e o encontro foi inevitável... como se fosse um filme, aquela reta se espichou e o sangue me subiu e eu sprintei em direção à ela. Tinha que ser assim, e foi. Agora era só seguir em frente, livre para um café com os amigos.

Encontro no Postaço selou uma parceria de muito tempo, deixou saudades.. e vai marcar minha memória. Liguei para minha amada esposa e avisei que chegaria em breve, para matar a saudade que me corria por dentro naquele momento. Tinha uma meta, agora de tempo... serviu como estimulo não me atrasar para um encontro com a minha família. Nem o forte vento contra, nem as dores no corpo, o esgotamento foram capazes de segurar a minha alegria em ouvir a minha filha gritando ao me ver no DC...

Nos vemos por aí meus amigos... de preferência pedalando. O sorriso e um bom papo eu garanto. — com Daniela Fonseca, Alexandre Pedroso, Claudir Schwingel, Ninki da Sac e Helton Moraes.

BRM 400 km - Relato Dener Roggia

Written By ninki on terça-feira, 20 de agosto de 2013 | 16:52

Relato do ciclista de Cruz Alta Dener Roggia, copiado do Facebook e publicado aqui no site. Quem tiver escrito o seu relato e quiser publicar aqui, só enviar para o nosso endereço eletronico, ok?

Bom dia, gostaria através deste relato agradecer a todos meus amigos que me apoiaram nesta minha conquista.

Como todos sabem neste final de semana participamos de mais uma prova AUDAX esta de 400KM, com muito esforço mas muito mesmo terminamos.

Começamos a pedalada bem, andando rápido e com o astral em alta, mas o gigante da estrada (AUDAX) mostrou que devemos estar muito bem preparados psicologicamente para encara-lo.

1º PC já mostrava o que seria esse audax, sono pegando, frio, neblina e escuridão, descansamos uma meia hora e tocamos a diante rumo a Encruzilhada do Sul, lembro de ter perguntado aos meus amigos "minha cara ta mal igual a de vcs?" e eles reponderam que "sim".

No percurso rumo ao PC2 adotamos a estratégia de cada um contar uma história que viveu até o momento em sua vida, para ver se passava mais rápido, eu contei uma, Marcel Barbieri mais umas e claro Jr Ortiz não parava de contar histórias umas até meio fortes de acreditar (kkkkk), mas enfim estava funcionando.

Ao chegar no PC o frio era muito grande, buscamos algumas alternativas para esquentar o corpo (jornal), jantamos e seguimos rumo ao PC3.
Neste sim chegamos acabados, sono,frio,fome e um desânimo total. Até agora não sei de onde tiramos força para prosseguirmos, mas ainda restava 220km.

Saímos rumo a Santa Cruz, nunca chorei tanto em minha vida. Olha por mim tinha desistido ali mesmo, mas fomos tocando daquele jeito e após um desabafo entre eu e Ortiz, resolvemos acabar com aquela tortura encostamos no Marcel e falamos "vamos senta o pau e termina com essa M.... de uma vez", bom andamos em uma media de velocidade de 35 mais ou menos uns 15km, quando chegamos no PC4, eu tava por morto tinha que pelo menos parar umas 2h tomar um banho quente, tirar aquela roupa molhada e fechar os olhos pelo menos uns minutos, isso era 5 h da manha. Achamos um Hotel e ficamos ali até as 7h.

Saímos então rumo ao PC5 exatamente 100km, uma neblina que vc não sabia se estava andando no plano, subida ou descida, pois tinha um "ventinho contra" e vc não podia parar de pedalar.

Daí em diante foi só superação, é difícil de explicar o que a gente sente naquele momento, eu só queria terminar terminar terminar o mais rápido possível, olhei pra roda dianteira da bike e pedalei pedalei pedalei pedalei..............até o fim, comecei a pensar em minha família, nos meus amigos que estavam na torcida, nos amigos que nem conheço pessoalmente e que estavam dando força através do Facebook e na Aline Machado Pinto que estava me esperando e me ligando a cada PC pra dar apoio. Não podia parar. Olhava para Ortiz e tentava passar uma imagem de força, mas no fundo ambos sabíamos que estávamos esgotados, no limite mesmo. Ao término do percurso que foram 423Km e não 400Km (kkkkkkk e como fizeram diferença estes 23Km), mas enfim, a melhor coisa foi o carimbo final, ver a Aline me esperando e aquele copo de chopp extremamente gelado que tomamos. Como diz um certo capitão Nascimento "missão dada é missão cumprida"!!!!!!

Fica aqui um pequeno relato do AUDAX 400KM.

Gostaria de a parabenizar a Ninki da Sac pela excelente organização e apoio, muito obrigado.

Um agradecimento especial aos meus grandes amigos o e irmão Jr. Ortiz e o mais novo irmão de pedalada Marcel o meu muito obrigado só vcs dois sabem o que foi esse 400km.

A todos os amigos de Face que a todo o momento mandavam força para nós, isso com certeza fez a diferença obrigado galera.
A minha esposa Aline que sempre ta junto apoiando nas boas e nas ruins, valeu mesmo amor essa vitoria foi em especial pra vc. Te amo.
A minha familia de mesmo aqui de Cruz Alta sei que torceram muito por mim.

Ao joão Joao Cunha Lopes pelo apoio que esta dando a essa modalidade e em todo o esporte da cidade. Obrigado e parabéns cara pelo teu trabalho como vc sempre fala "temo junto".

A um amigo que mandou um mensagem que lembrei em certo momento e me fez muito bem "....e sem saber que era impossível, eles foram lá e fizeram!" Missão dada é missão cumprida Valeu Paulo Eduardo Gewehr Cardoso

E agradecer a todas as outras pessoas que de uma forma ou outra contribuíram.

Encerro com a seguinte Frase: "O sofrimento é passageiro, mas a derrota é para sempre" (Lance Armstrong)

BRM 400 KM, que foram 423 km.

Relato do ciclista de Cruz Alta Jr Ortiz, copiado do Facebook e publicado aqui no site. Quem tiver escrito o seu relato e quiser publicar aqui, só enviar para o nosso endereço eletronico, ok?

No dia 17 de agosto de 2013, as 05:00 hrs fomos até Porto alegre para mais um desafio em nossas vidas, completar uma prova BRM 400 km, viagem tranquila com a pilotagem segura da minha bela Suzana Hanauer e coo pilotagem da grande amiga Aline Pinto.

As 13:00 hrs estávamos no Shopping DC para fazer o briefing, tudo pronto, as 15:00 hrs largamos.
Expectativas, nervosismo, confiança, curiosidade, medo, força, uma mistura de sentimentos na largada.

Logo na saída se percebe que em cima de uma bicicleta todos os homens são iguais, não importa condição social, grau de escolaridade, patente militar, etc... Somos iguais.

O Dener já relatou coisas sobre a prova que eu gostaria de complementar, coisas que não passa na cabeça de quem olha de fora.

Antes do PC 01 na euforia, antes de escurecer, a estrada tão linda, o sol brilhando, o entardecer maravilhoso, comentei com o Marcel, sobre quantas vezes ainda teríamos a oportunidade de ver aquilo juntos, diminuímos a velocidade, conversamos por alguns minutos sobre coisas da vida, reflexões que rotineiramente não tem lugar nas nossas vidas, gostaria de poder passar um vídeo daquele momento, me marcou muito.

Alinhamos as bikes e o bixo pegou de novo, asfalto ruim, a luz que não ajudava muito, escuridão total, o escuro machuca, não da pra imaginar o quanto. Nesse ponto já estávamos com uns 100 km e faltava pouco para o PC, mantivemos a pedalada no grupo, nesse momento aparecem alguns sintomas do esforço, dor em algumas partes do corpo, fome, sono que vem com questionamento de quanto km ainda faltavam.

No PC 01 passamos para carimbar o passaporte e comer alguma coisa para subir a tal serra, não achei grande coisa.

Sentado com um pastel sendo devorado, meus companheiros falaram que eu estava horrível, realmente estava, não conseguia abrir os olhos, não sei o que aconteceu, mas estavam fechando sozinhos, me alimentei, turbinei a cabeça com algumas frases positivas e fomos pra serra.
Fomos subindo e a tática era contar historias, umas até aumentadas como Dener disse, porque acho que esse tipo de causo merece um polimento…hahahaha.

Sabemos que essas provas não são de competição e ser ultrapassado baixa a estima as vezes, isso no meu ponto de vista, nessa serra dois ótimos ciclistas nos passaram, quando percebi que o grupo estava perdendo as forças vi uma luzinha longe, cerca de 1 km quando falei pro Dener, vou buscar! Minha intenção era motivar, e fui, parei do lado do parceiro de estrada conversei um pouco, e fui até o PC 02 sozinho, logo chegaram o Dener e o Marcel, um ou dois minutos depois, acho que aquilo ajudou um pouco na motivação.

Jantar faz tão bem, batata doce faz milagres, uma camiseta seca então. Pequenas coisas que fazemos todos os dias e são tão normais.

Vamos descer a serra? Feito, o bixo pegou por certo tempo, mas dores e o cansaço antes chegar no PC 03 nos destruiu, chegamos aniquilados e ainda faltavam 55 km para Santa Cruz do Sul, la tomei uns BCAA e uma cafeína.

Nesse trecho entre Pântano Grande e Santa Cruz pensei muito em arrumar uma desculpa, mas uma desculpa para terminar a prova, é impressionante como eu queria dizer pra eu mesmo que não precisava desistir, parei um momento, desci da bike, ia parar, mas pensei que não podia perder a força, desistir seria muito fácil pra mim, então, continuei.

Em certo ponto arrumamos força e martelamos os pedais, média de velocidade alta, chegamos em Santa Cruz, quando parei bike a cheguei a cambalear as pernas, estava fraco, mas nada que um lanche não desse jeito. Como o Dener falou, precisávamos de uma parada maior, paramos em um hotel, me fez mal, tática errada, eu acho.

Saímos do hotel rumo ao PA do Parque Panorama, eram umas 7:00 hrs da manhã, muito frio, meus braços tremiam tanto que eu não conseguia manter a roda alinhada, ficava balançando.

Logo veio a parte mais dolorosa da prova, meu joelho estava doendo, meu psicológico acabado, mas eu tinha que acreditar, é impressionante isso, pensar em família, amigos, a imagem do sorriso das pessoas que acreditam em ti, até a lembrança do cachorrinho que nos espera quando chegamos em casa, as batalhas que já travei, tudo vem com tanta força, me arrepio de lembrar. Lembro-me de em certo momento chorar, olhei para o lado onde estava o Dener pedalando, esperando no mínimo um consolo, percebi que ele chorava também, disfarcei e continuei. É…Audax não é fácil. O psicológico e físico tem que estarem muito bem preparados.

Almoçamos as 10:00 hrs da manhã e combinados de chegar no ultimo PC 12:00 hrs, chegamos as 12:18, nada mal para quem não tinha mais força, lá paramos 30 minutos e seguimos, faltavam 54 km, olhamos o facebook, vimos as mensagens de apoio, sabíamos que íamos terminar, torcemos para o vento estar a favor, mas estava contra, mas já que tudo tinha sido tão difícil, que viesse vento contra ou qualquer outra coisa que não iriamos parar.

No meio de tudo isso davamos umas risadas, brincávamos, é uma variação muito grande de emoções, mas o cansaço só aumenta.

Chegamos no ponto de chegada as 15:44 hrs, felizes, satisfeitos, mais experientes, carimbamos o passaporte, cumprimentamos os amigos, as patroas e a organização e comemoramos.

Aprendi muito com essa prova, posso dizer que percebi que nós, em nosso dia a dia deixamos passar tantas coisas, é muito fácil mudar de ideia, trocar de ideais, inventar desculpas, deixar de lado ao invés de insistir, persistir e ter esperanças.

Lembro de uma frase que diz “A vitória pertence a quem mais acredita nela, a quem acredita por mais tempo”

Acreditei. Como sempre fiz, o dever de casa foi feito, cumpri minha proposta, venci mais essa batalha. Por mais que chorei e sofri, faria de novo, cada lagrima e sofrimento foi justamente pago.
24;44 hrs das mais profundas reflexões, sensações, emoções e desejos.

OBRIGADO POR TODOS QUE APOIARAM, QUE ACREDITAM NO SIGNIFICADO DISSO TUDO, ESSA VITORIA É UM POUCO PARA CADA UMA DE VOCES...
AGRADEÇO AS MENINAS QUE SEMPRE ESTÃO JUNTO NAS AVENTURAS.
E UM GRANDE ABRAÇO PRINCIPALMENTE AOS DOIS NOBRES GUERREIROS QUE LUTARAM DO MEU LADO DURANTE A PROVA, DENER E MARCEL, VOCÊS SÃO DEMAIS!
PARABÉNS AOS ORGANIZADORES E APOIO DURANTE A PROVA.
E QUE VENHAM OS 600 KM!

ABRAÇO A TODOS.

BRM 300 km - Relato do Leandro Leite

Written By ninki on segunda-feira, 3 de junho de 2013 | 15:32

Com o relato dos voluntários Tiago e Maurício, sabia que seria um pedal bem difícil, principalmente pela altimetria. O meu planejamento era fazer as paradas para descanso e alimentação somente nos PCs, e almoçar caso tivesse algum tempo sobrando. Se conseguisse chegar no PC 3 de Farroupilha (km 228 na volta) antes de fechar teria tempo sobrando para poder descansar até o final. Até cheguei a emprestar a minha câmera para a Romi poder fotografar (não queria perder tempo fotografando o percurso).

Leandro ainda no briefing


Foi bem tranquilo chegar em São Leopoldo, peguei o Trensurb, até encontrei o Valter saindo do trem na estação (tinha pego outro vagão). A largada foi no horário combinado, tentei pedalar com um bom ritmo até Bom Princípio. Já estava de madrugada quando começamos a subir em direção a Farroupilha. Sempre tinha 3ª faixa e nenhum trânsito, numa noite de lua cheia e sem frio (até mesmo porque é só subida). Subi na maior parte conversando com o Helton (falando sobre o aplicativo que está sendo projetado – dei até umas dicas). No percurso de São Leopoldo até o PC 1 de Farroupilha, foram pedalados 77 km em 4 horas, com direito a subida de 1.100 .

Aproveite para me alimentar e descansar no PC de Farroupilha durante 35 minutos. Já estava 8º C, começando a fazer frio (principalmente quando paramos). Comemos um prensado muito bem feito, conversamos um pouco e logo partimos.

Logo que saímos de Farroupilha (apenas uns 7 km depois do PC) a corrente do ZZZZ arrebentou (levou junto o cambio dianteiro). Prontamente o Helton se dispôs em consertar, com a ajuda dos colegas que ofereceram o jornal para colocar no chão para não sujar a corrente. Rapidamente partimos, o pessoal estava bem rápido, eu mal conseguia acompanhar. Tentei ficar perto do pessoal até a entrada para Boa Vista.

Cheguei no acesso a Boa Vista (o pessoal estava parado esperarando todos), eu nem parei, segui em frente com a companhia do Valter, até mesmo porque tinha o percurso no meu GPS (não tinha como se perder). Chegamos em um local de uma santa no meio da pista, o GPS indicou que tinha que sair da rodovia e pegar a esquerda. Mas o Valter (e mais uns dois ciclistas) tinha seguido em frente. Até perguntei para eles se tinham escutado alguma coisa no briefing sobre o local, mas senti que eles sabiam o caminho. Depois de alguns km pedalados, como estávamos indo para direção errada, e também não vinhamos nenhum outro ciclista, vimos que tínhamos que ter pego a outra estrada, tivemos que voltar.
Já no caminho correto (como estava marcado no GPS), seguimos em direção a Boa Vista. Já no meio da cidade encontrei o Tiago e Maurício em um PC secreto (para a organização poder controlar caso algum ciclista “atalhasse” por outro local). Foi escolhido um local bem visível, na frente de um posto de saúde (até tinha uma ambulância estacionada). Rapidamente carimbamos o passaporte e seguimos em frente. Descemos a serra com bastante serração, mas como era cedo, mal tinha carro na rodovia. Levamos quase 4 horas para percorrer os 77 km (com direito a 840 metros de subida) de Farroupilha até o PC de Estrela. Chegamos no posto bem cedo às 7:30 da manhã.

No PC de Estrela estava o pessoal da região que ajudou a organizar o local. Encontrei os amigos de Teutônia, que fizeram os Audax de 600 km semana retrasada. Aproveitei para comer um pastel de queijo (o Helton pegou outro pastel mas não gostou muito), ficando uns 50 minutos no local. Fiquei um tempo esperando alguém para não ter que seguir sozinho, mas vi que o Helton estava se enrolando com o pastel e resolvi encarar a subida da volta sozinho mesmo.

Logo depois de Teutônia existe uma subida em torno de 7 km. Toda ela com 3ª pista, já com algum movimento de carros (porque era dia). Estava começando a esquentar, tive que parar em 2 locais para trocar de roupa, subi junto com o ciclista de Rio Grande. Quando passei pelo desvio de Boa Vista, tentei achar o pessoal do PC secreto, até achei que os dois voluntários estivesse dentro da ambulância parada, mas não encontrei. O Tiago estava nos esperando já no restaurante do almoço (ele controlava visualmente o pessoal saindo do desvio). Levei 3 horas para percorrer os 41 km de Estrela até o local do almoço (com direito a mais 910 metros de subida).

O pessoal serviu muita comida, nem cheguei a comer a salada de maionese e a de batata frita, mas estava bom o queijo frito. Estava me preparando para sair quando Eric Brack tinha a recém chegado. Fiquei um bom tempo (em torno de 50 minutos) almoçando porque já estava cansado de tanta lomba, até já tinha estourado o tempo planejei. Depois de ouvir algumas vezes a Ninki falar que tinha ficado muito tempo, resolvi partir para encarar a ultima parte difícil.

Na saída fiquei sabendo com o pessoal do restaurante que existia um lomba ingrime antes de chegar em Farroupilha. Claro que existiam muitas lombas (alias, era só lomba), todas eu pensava que essa seria a tal grande lomba que o pessoal falou. Um pouco antes da entrada da cidade, minhas dúvidas acabaram logo que vi a maldita. Já estava meio cansado de tanto subir, e meio de birra, subi pedalando toda (até o joelho esquerdo começou a doer). Logo depois (ou antes, não me lembro) encontrei parado o ZZZ consertando a corrente novamente (acho que ele conseguiu desta vez usar a ferramenta que nunca tinha usado), ofereci ajuda (apesar de não ter muito o que fazer), mas logo vimos que o melhor eu era prosseguir porque já estava com o tempo estourado para chegar no próximo PC.

Depois de pedalaros últimos 600 metros de subida nos 35 km, por 2 horas, cheguei no PC de Farroupilha às 14:21. Rapidamente carimbei o passaporte, comi uma banana e logo parti com o grupo que já estava saindo para descer a serra. Estava bem feliz, porque sabia que o final seria bem fácil, sem muitas subidas. Também fiquei sabendo que a Ninki até apostou que eu não chegaria a tempo (vai ter que pagar a próxima pizza).

(Explicações da Organização) Claro que meu querido amigo e voluntário da SAC, tinha que dizer que eu achava que ele não iria terminar. Mas Leandro, eu não apostei nada!! E a próxima pizza quem paga é você; não é Romi? Na verdade (enquanto a gente discutia a infra necessária para a estrada) a conversa foi sobre quantos ciclistas a gente precisaria resgatar no trajeto.  E note, o maior motivo que eu disse que você se atrasa, são as fotos e você ouviu meu conselho e deixou sua digital com a Romi, portanto não "perdeu" tempo com fotos.

Foi praticamente só descida até Bom Princípio, foi bem legal descer a serra a 50 km/h. Mas estava cansado porque mal tinha parado para descansar. Resolvi tentar achar algum lugar se alimentar. Achei uma lancheira em Bom Princípio, onde tomei o melhor suco de morango e mais um sanduíche. Logo depois chegou o ciclista de Rio Grande, que também aproveitou o suco e partiu rapidamente. Eu esperei mais um bom tempo descansando. Sabia que a partir dali seria moleza. E foi bem tranquilo (apesar do congestionamento da rodovia).

Completei os 300 km em 19:35, subindo mais de 3.700 metros de altimetria, numa noite de lua cheia, que nem muito frio fez. Acho que foi um das melhores experiências de audax que já tive, num percurso muito bonito e bom de pedalar. O meu agradecimento com o apoio do pessoal da organização, principalmente nesta difícil prova que, sem ajuda, não teria conseguido completar no tempo. E que venha os 400 km com menos lombas.

Relato Erich Brack - BRM 300 Km, 25 e 26 maio de 2013 - SAC

Written By ninki on sábado, 1 de junho de 2013 | 19:34

São Leopoldo-Farroupilha-Estrela

Chegada do Erich no PC 01.


Com a mensagem do Helton, não tenho muito que comentar, foram sabias palavras, e tradução correta do diálogo. O que apenas não constou foi a minha certa “raiva” em tentar responder esta pergunta, quando eu na realidade já pensava em desistir... Diante de todas aquelas subidas pela frente. Fico muito agradecido pela franqueza das palavras duras, mas verdadeiras.

Muito contente com a localização da largada em São Leo, onde aprendi a andar de bicicleta durante minha infância. Muitos preparativos prévios com a instalação de um novo farol de dínamo no cubo, atendendo a orientação da organizadora pela importância da iluminação, obtendo 90 lux em luz alta. Adrenalina a mil, devido discussão prévia sobre a altimetria, além da participação de meu irmão e minha cunhada Maxi, iniciando na modalidade Randonneur e única representante do sexo feminino, nesta árdua empreitada que se avizinhava!

Na saída, alguma dificuldade na montagem da bike, agora um pouco mais difícil devido toda fiação elétrica a ser montada, enfim, tudo funcionando, mas sendo um dos últimos a alinhar para a largada!

No primeiro trajeto, pedalando sem compromisso com ninguém, encontrei o Leandro G. Leite, com quem conferi algum detalhe sobre a localização do primeiro PC, o trajeto ser inédito, mas logo partiu adiante, quando fui aos poucos encontrando o Lacerda (Curitiba), nosso apoio no PBP 2007 em Paris, bem como logo encontrei o Calvete e posteriormente fomos alcançados pelo pelotão do Dieter, Maxi, Juarez Pereira e pelo Mauro Guerra, e aos poucos fui localizando na frente pela capacidade de iluminação do farol e mesmo assim houve uma queda de parceiro ao passar por montanha de brita, seguindo assim até o pé da subida de Farroupilha, onde sugeri parada para alimentação e desprezar substancias líquidas desnecessárias para levar junto, retomamos o pedal em grupo, e lentamente fui me distanciando, pois grande maioria do pelotão estavam de MTB e com bagageiros bem carregados. Sendo que até a chegada de Farroupilha ia eventualmente desligando o potente farol para poder apreciar a beleza das montanhas na noite de luar, aproveitando para distrair-me na solidão, enquanto ia alcançado alguns companheiros a frente como Calvete, Mogens, Lazari, Fabrício e mais dois que não conhecia. Molhado e cansado, chegando em PC1 de Farroupilha, um café, chocolate, água e torrada completa, prossegui rumo a Garibaldi.

Neste trajeto fui acompanhado pelo Valter, algo atrasado por ter furado um pneu, nos perdemos no centro da cidade, mas conseguimos ver a bonita igreja de Farroupilha, toda iluminada em plena madrugada, enfim após algum ziguezague encontramos um motorista de taxi que ajudou a encontrar o rumo do desvio Blauth. Algo conturbado pelos paralelepípedos cruzados e trepidando levando a bolsa de guidão ceder e cair sobre o farol e que também ia cedendo lentamente gerando duas paradas para apertos de parafusos.

Enfim conseguimos seguir pelo desvio indicado e encontrando inclusive o PC secreto, quando visualizamos um ciclista passando atravessado no asfalto em nossa frente e depois o avisamos sobre a existência do amigo walesco . Valter queria chegar as 8 h em Lajeado, seguia um pouco a frente eventualmente, quando chegamos praticamente juntos no PC e encontrando a companheira preferiu quedar-se na casa da namorada, abandonou a prova alegando frio, neblina...

Tive que retomar a volta sozinho, o morro apertando, na direção de Garibaldi, e toda aquela subida, algum ziguezague, encontraram o amigo Helton saindo de algumas vegetações nativas, oportunidade onde se seguiu o diálogo citado, gerando alguma angústia em tentar animar e seguir em frente diante da resistência do amigo que pensava apenas em chegar ao restaurante do almoço. Foi uma subida bastante dura, encontrando inúmeros veículos antigos que desciam velozmente provavelmente oriundos de algum evento, Exposição de veículos antigos em Teutônia, subindo lentamente com a “ajuda” do vento contra ao chegar perto do cume, e aos poucos se desvencilhando das luvas e partes da casca de cebola, enfim chegado do inicio do desvio, uma parada pra alimentação, seguindo em frente e encontrando com o Lazari sendo resgatado, pensei tá ficando séria a coisa! A seguir nova elevação e sendo alcançado por outro ciclista, e juntos ziguezagueando pelas lombas, e chegando um veículo, caiu, sendo atendido pela camionete de cruz alta que nos seguia!

.... Erich, você realmente estava  cansado, confundiu o Lazary, com outro ciclista, porque o nosso amigo Lazary, desistiu no Km 152 (Promilk), alegando despreparo devido ao alto ritmo de trabalho dos últimos meses. (nota da Organização)

Chegado o restaurante, mas a fome nem era muita, começava uma sensação de estranha saciedade, alimentei-me relativamente mal, e logo chegando o Helton que gostaria de sentar-se comigo, mas ficando com medo de me atrasar, segui adiante, usando alguns bronco-dilatadores e medicação anti-hipertensiva, pois tinha a impressão que o pulmão começava a dar sinais de broncoespasmo, já que havia relaxado o uso de medicação profilática, no restaurante de comida bastante gordurosa, fui avisado que o PC3 fecharia as 14:17 h, e achando ser possível fazer os 30 km restantes, alcancei o desvio Blauth.

Seguindo lentamente morro acima, não rendia, parei aguardando e rezando conseguir contato com Ninki para resgate, pouco confiante, pois já sabia por ela que estava sem celular (bateria), mesmo assim tentei, nem resposta. Tive de seguir em frente, quase sendo atropelado por três veículos na entrada pelo vértice da trifurcação, sendo cortado por dois carros que seguiram a minha direita em sentido contrario. Quando chega o KM 222 encontrei uma PAREDE no meio da pista, impossível subir, parei em frente a uma porteira, sentei e fiz uma parada calculada de 15 minutos para descanso e criar coragem de enfrentar a situação, pensando, pensando, enquanto curtindo o sol, fitava a subida e ia imaginando, criando coragem. Sem condições de subir pedalando, subi a pé com a sapatilha gasta escorregando no asfalto, quando, enfim chegando a Farroupilha, o reboque famoso passou, pedi lugar pra mais um, mas seguia em frente, nem parou!

Alcancei o PC já em vias de término de serviço, querendo desistir e sendo intimado pela organizadora a seguir em virtude de ainda haver tempo necessário e ser descida, a parte mais perigosa, sem acostamento, e a mais emocionante por necessidade de ser veloz.

Comi uma salada de frutas, um suco enquanto o caroção já deixava o PC, liguei o famoso farol, com sinaleira e luz de freio, para impor respeito aos motoristas e seguir para o perigoso trajeto da descida, ao qual consegui fazer tranquilamente, descendo no meio da pista a 60 km/h e eventualmente permitindo ultrapassagens quando a estrada assim permitia, felizmente não passou nenhum caminhão, apenas alguns ônibus.

Em uma das paradas, liguei para minha filha torcer por mim, pois estava em vias de conseguir chegar a tempo numa disputa tão acirrada contra o tempo, colocando-a a par da situação, ainda tínhamos de chegar a Santa Cruz do Sul, pois estava na casa dos avós em Porto Alegre!

Algum movimento intenso ao cruzar o pedágio, e não chegava nunca o tal do entroncamento com a BR 116. Seguindo pela rua lateral, frente ao grande movimento da chegada á capital, consegui alcançar o Ginásio de Esportes de São Leopoldo, sendo o último a chegar, faltando ainda 20 minutos para o término do tempo. Muita felicidade e cansaço na chegada, abraço, fotos e carregando o carro, fiquei sabendo do alto índice de desistências ocorrido, 21 de 64 inscritos. Houve um comportamento adequado da bicicleta, não furei nenhum pneu, apenas o selim, companheiro de dois PBP´s terminou por esfarelar-se, resta apenas minha crise de asma, desencadeada pelas extremas condições de umidade e frio encontradas.

Parabéns aos organizadores que tiveram a ousadia de incluir uma prova bem diferente das anteriores, lembrando que a altimetria provavelmente é a correta, pois certamente como se tratam de estradas vicinais, não tendo nenhuma obra grande de terraplanagem, túnel, viaduto certamente terá muito mais ascensões que a rota do sol que tem vários túneis e viadutos, com uma subida lenta e constante!

Fica minha sugestão de realizar a prova de 1200 km com trajeto POA FLORIPA POA, passando pela serra! Certamente seria um sucesso diante das inúmeras belezas naturais e transito ainda bastante reduzido pela descontinuidade do asfalto em parte do trajeto! Teríamos inclusive uma ponte parecida e linda como a chegada em Brest!



Erich Brack/Zé do Pedal

PBP 2007, PBP 2011

BRM 300 km - Relato Jr Ortiz

Written By ninki on terça-feira, 28 de maio de 2013 | 21:01

O AUDAX 300 KM,


... os quatro guerreiros de Cruz Alta.

Relato originalmente publicado pelo ciclista Jr Ortiz, no Grupo Cruz Alta de Ciclismo, no Facebook.

As 9:00 da manhã de sábado , dia 25/05/2013 saímos de Cruz Alta rumo a Porto Alegre, viagem muito legal com muitas brincadeiras, muitos planos e muita pretensão para prova que iniciaria as 23:00 hrs.

As 15:00 hrs fizemos o briefing e logo após passamos na casa do Klaus para o Seu Mogens pegar alguns equipamentos para a bike.

As 21:00 hrs estávamos no ginásio em São Leopoldo para esperar a largada.


As 23:00 hrs largamos, com 700 e pouco metros de pedalada furei um pneu, estávamos em um grupo de sete ciclistas, todos esperaram e me ajudaram a trocar e tranquilizar. Continuamos nossa pedalada tentando tirar o tempo que ficamos parados, tiramos o tempo.


Logo nos primeiros 30 km senti uma fisgada na coxa que vinha me incomodando ha umas 3 semanas e diminuí o ritmo para ver como seria na subida, na subida comecei forte e o pelotão foi se dissipando, mas aquilo é que se chama de subida (ainda não tinha visto as da volta), nunca mais terminava, chegamos no topo eu, Sergio e Robson, logo após chegaram os companheiros Dener (Dener foi muito forte em terminar essa prova com aquela relação de marchas) e Marcel. 

 
Nesse PC começamos a nos dar conta, ainda haviam 227 km para pedalar, estava muito frio que chagamos colocar jornal por dentro das jaquetas para tentar aliviar o frio (estamos molhados de suor por baixo das jaquetas). Ficamos por ali cerca de 45 min. O Seu Mogens ficou para trás e mais tarde ficamos sabendo que ele havia desistido, juntamente com outros tantos.


Saímos com força rumo a lajeado, depois de uns 3 km o Robson sentiu o joelho e resolveu parar, perdemos mais um companheiro. Parabéns Robson você foi guerreiro somente na atitude de tentar completar essa prova.


Continuamos em uma estrada vicinal, em certo momento estávamos perdidos, nosso navegador Marcel foi consultar o GPS e não viu o Dener parado na frente e houve uma colisão. Coisa mais linda…hahaha, pensei. Mas vão se quebrar esses loco…hahaha. Visto o caminho continuamos o sobe e desce, que loucura, o frio deixava a distancia maior ainda, o primeiros sinais de cansaço começam a aparecer.


Chegamos ao amanhecer no PC2 em Estrela, fomos muito bem recebidos pelo pessoal da organização, troquei as roupas, fizemos um lanche e nos preparamos para a parte mais difícil, subir tudo aquilo, só de pensar era quase desanimador, logo no inicio da subida separamos nosso grupo, fomos eu e Sergio, Marcel e Dener um pouco mais cansados resolveram ir mais devagar.


Começamos a subir e subir, é algo difícil de explicar (toda essa experiência não tem como explicar) não acabava mais, em certo ponto começou a ventar contra, até apelamos para a oração, cantamos o hino Riograndense de novo…hahahaha, o vento não parou mas deu pra dar umas risadas diante de tanto esforço. Paramos pra almoçar, comida ótima, ficamos ali uns 30 minutos, quando estávamos saindo, chegaram Dener e Marcel, uns trapos, mas chegaram, que força psicológica deles. 


Continuamos e até caminhamos metade de uma subida que era de empinar a bike e chegamos em Farroupinha, saindo no pórtico furei mais um pneu, eu o Sergião trocamos que daria inveja na equipe da Ferrari, uns 8 minutos, logo após fomos para o PC3 onde ficamos mais um tempo, foi quando chegaram o Marcel e o Dener, que alegria de ver aqueles dois, pensei, agora vamos juntos até o final. O cansaço tava grande, mas nós estávamos mais motivados do que qualquer adversidade.

Saindo de Farroupilha fomos descer a serra, trancamos o acelerador, bota pau, depois de descer pegamos um trecho quase plano até São Leopoldo, paramos varias vezes pelo cansaço, mas fomos com tempo sobrando, completada a prova, quando abracei os companheiros no final da prova quase chorei, mas dei uma machão, foi muito gratificante fazer essa aventura com vocês.

Obrigado Dener Roggia, Marcel Barbieri, Sergio Charão, Robson Freitas Fernanda Bergoli e Mogens Nielsen

E que venha os 400 km!


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